sábado, 25 de agosto de 2007

O papel da mosca

Vermelho. Longe de qualquer sombra, o sol parece me queimar em cada átomo constituinte do meu braço – de coloração já obviamente diferente do outro – além de um calor sufocante, uma certa dor começa pequena nas pontas dos meus dedos, enquanto meu estômago expressa sua mágoa pela comida apimentada de pouco.
Acostumada a qualquer desconforto, minha mente já não processa as ruas, nem as calçadas, e vaga por histórias fictícias e aleatórias que cria, alimentando meus devaneios – quase sempre infantis e estultos - diante da vida, mantendo-me alienada do que o mundo insiste em considerar real.
Preciso escrever para o blog. Impressionante, desde o café-da-manhã não tenho mais nada com que me preocupar além do fato de que preciso escrever para um blog. Perturbador, também, é que no processo de tantas circunstâncias nenhuma palavra me ocorre, em absoluto.
Uma mosca entra pela fresta da janela, ligeira e impaciente como quem tem pressa. Verde, daquelas que não podem evitar seu destino e viver sua mediocridade (não entendo o papel das moscas) em apenas um dia. Se minha vida se resumisse em apenas um dia, eu também teria pressa.
Um dia decisivo. Ação e pensamento orquestrados com dinamismo e singularidade, pode soar desesperador para a maioria, para mim, poderia ser a salvação. Não racionalizar a vida seria, quem sabe, a exata dose de ousadia que me falta para acabar com o medo. Aceitar gostos amargos seria como colocar minha língua à prova, ao invés de passar uma vida sabendo apenas da insossa saliva diária.
Sim, tenho pressa. Mas o semáforo continua vermelho.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Metalinguagem Fracassada

Desisto. Fico pensando por tanto tempo sobre o que escrever num blog que não tenho mais vida! Tenho uma conversa interessante com alguém e penso "Nossa! Isso dá um ótimo texto para o blog!". Imediatamente, portanto, me desconcentro da conversa e penso no maldito blog.

Difícil criar algo orgânico, lembrar de uma conversa interessante e adaptá-la.

Portanto vim aqui "pelado". Estou escrevendo diretamente. Nada de correções. Vou apertar o botão "Publicar Postagem" imediatamente após encerrar esse raciocínio.Um texto puro e orgânico. Nada de correções de gramática, ou pontuação. Um erro ou outro de digitação pode ocorrer. Não me importo.

Tudo soa mais interessante quando o pensamento pousa em sua mente como um gafanhoto numa planta qualquer, e é imediatamente jogado no papel. No caso, no blog.

Infelizmente, tudo também é mais interessante quando é pensado antes. Devia ter pensado numa linha de raciocínio antes de começar. Fiquei meio perdido... vou dar uma rápida relida enquanto tento retomar o fio da meada... enquanto isso, vocês podem assistir isso:


(curiosidade: o termo SPAM na internet foi inspirado na sketch acima)

Ok, primeiro parágrafo: o blog atrapalhando minha vida;

Segundo parágrafo e seguintes: "ao vivo, de Blogger.com, um post de Rodrigo!

Me resta a melancólica conclusão: Difícil planejar algo que pareça improvisado... vou me esforçar menos na próxima vez...

Risos e sangue

— Maldição! – repetia aquele desacreditado ser. O fogo alto de seu fogão Dako quatro bocas parecia não entender que pra um vampiro tão velho quanto ele, não precisava de velocidade no simples cozer de um Nissin Miojo sabor churrasco. Ele tinha toda a eternidade do mundo.


Mas quem parecia não entender, era o pobre Bóris que o mundo havia se modificado. “Evoluído”, até diriam alguns. Que as dificuldades de se acender uma fogueira em meio a um bosque havia sido substituído pelo prazer de colher madeira para o fogão a lenha; que a arte de partir a madeira com o machado – uma ferramenta que sempre o fascinou – transformara-se naquele imãzinho com o telefone do tele-gás na porta da geladeira; e que até isso já era coisa do passado com o microondas. Mas forno a microondas já era demais pra Bóris. Não, há coisas a qual um vampiro jamais se renderá. Bastava-lhe comer sopas instantâneas como complemento alimentar.


O computador e a internet, no entanto, não se incluíam nesta lista. Bóris se entregou aos prazeres de viajar para qualquer lugar do mundo com apenas um clique. E lembre-se que estamos falando de alguém que num piscar de olhos se transforma em um morcego e pode viajar para qualquer lugar!

Carregou para seu porão um notebook – idêntico ao que viu na TV do vizinho, espiando pela janela – roubado de uma de suas vítimas juvenis e desde então não pára de se encantar com aquele pequeno aparelhozinho que faria velhos amigos da idade média clamar pela fogueira.


Com pouco tempo de adaptação – principalmente para suas longas unhas, que gostava de chamar de garras –  já navegava por sites de notícias (ainda que títulos como “Mantega: turbulência não abalará economia” o deixava na dúvida se era algo sobre culinária, a crise aérea ou economia mesmo) e mandava e-mails (que inclusive, rendeu uma resposta tão polida quanto irônica do SAC da Nissin dizendo que um sabor de sangue não estava nos planos da empresa) e buscava parentes distantes com a ajuda do Google. Até encontrou um meio-primo esloveno que não só negou a família, como negou a raça. “A morte foi pouco por ter se tornado vegetariano”, publicou mais tarde em seu blog.


Este blog, aliás, que contava suas aventuras noturnas, era sua mais nova tara – além, é claro, de cantores de duplas sertanejas interioranas, com suas calças ultra-apertadas e circulação sangüínea interrompida. Até tentou bate-papos e MSN. Parecia, a princípio, uma ótima maneira de conseguir novas vítimas. Mas reconsiderou quando inadvertidamente pegou um vírus que afirmava, em seu nome, ter-se submetido voluntariamente a práticas sodomitas. Um episódio que nem mesmo o melhor de seus dias de caça havia feito com que aquelas bochechas ficassem tão rosadas. “Os bailes vienenses eram uma loucura, é verdade”. Mas todos foram sempre muito discretos.


Foi então que decidiu dedicar-se apenas ao blog mesmo. Mas até isto já estava lhe trazendo algumas dores de cabeça. Não foram poucas as vezes que pensou em desligar a opção de comentários. Até teria feito, se soubesse como. Tinha gente que tinha verdadeiro prazer em fazer graça de seus posts e sugerir – muitas vezes de maneira nada gentil – que procurasse tratamento médico. “Cuidem de suas vidas! Enquanto eu não os encontrar, malditos!” vocifera sempre ao final de cada post.


Mas Bóris não conseguia entender que esta era a graça da coisa toda. A interação (insultos mútuos), a troca de experiências (confissões desavergonhadas), liberdade de idéias (anonimato garantido) e contato social (mais insultos). Um de seus posts, “Riso e sangue”, que contava o desastroso fim da pobre e jovem loira  vendedora de lingerie que riu descontroladamente quando ouviu suas últimas palavras (“Curve-se e ofereça-se voluntariamente a sede de Mortícius”, seu codinome pela noite) foi inclusive ganhador de um prêmio de comédia de uma emissora de TV. Bóris se recusou a comparecer no evento de entrega. Aquilo não era graça, era fato.  Se houvesse, aliás, um pouco mais de confiança e verdade na internet, os organizadores do tal evento ficariam aliviados pela ausência do velho mordedor. Ele teria feito um estrago com tantos teens descontrolados, tenros e corados.


Melhor para eles. Para Bóris, o sol já se punha e estava na hora de entrar em ação. Os tempos podiam ser outros, o pouco e ralo sangue puro disponível tipo O positivo (seu preferido) também. Mas há coisas num vampiro que nunca mudam. Ainda bem!

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

A Abertura

Estava eu de novo naquele bar. Agradável, barato, gente simpática, mas com um péssimo DJ.

Encontrei Bárbara olhando no relógio sentada num canto. Perguntei por Léo. As vezes esqueço que ele é campeão de faltar em compromissos. Compromissos que ele mesmo marca, diga-se de passagem.

- Eu tava quase fazendo pirilim - diz Bárbara - Falando nisso, tive uma idéia para o começo da abertura do blog! Eu estou sentada e você me pergunta: "Cadê o Léo?".
- Pelo jeito vai ser isso mesmo...
- Qual será o tema? O Léo disse pra gente pensar...
- Eu tinha pensado nessa idéia... gravarmos nossa conversa... mas complica quando a rapariga falta... enfim...
- Enfim...????
- Temos Joy para substituí-lo...

Bárbara solta um "afff" e retruca:

- Não precisamos dele agora! A gente tem a base... depois fica individual...
- Tá... só... tipo... ok... - disse, desanimado. - O que você quer ver na abertura?
- Não sei... um diálogo! Nós conversando num bar... sem começo, nem meio nem fim... só um fragmento de conversa...
- Tipo o Tarantino's Mind?
- Isso! - Exclamou ela, empolgadíssima. - Não tinha pensado nesse curta, mas é isso!
- Entendo... podemos citá-lo inclusive no Blog... fica uma coisa meta linguística... coisas meta linguistícas são ótimas... a gente fica parecendo inteligente.
- Verdade...
- Como comentaremos do Tarantino's Mind, podemos inclusive colocar o link para as pessoas verem o vídeo e não se perderem na conversa...

TARANTINO'S MIND


- E assim sempre damos algum referencial - prossegui - por exemplo: Quando citarmos o Léo, colocamos um video da Cher.

Um pouco de silêncio, até que Bárbara ria, e sem parar. Sou mestre em fazer piadas que deixam todo mundo olhando sério para mim. Léo sabe bem disso...

CHER - "BELIEVE"


- Sua primeira boa piada do dia!
- Eu me esforço... - digo meio sem graça...
- Não recebi nenhum scrap dele hoje... - diz Bárbara - porque (----) não me manda nada?
- Ei, qual vai ser o nome do (----) no blog?
- Ah...tem que ser um nome de Príncipe!
- Charles?
- Andres! Isso, vai ser Andres!
- Parece mais nome de cordilheira. - essa é uma das típicas piadas que citei a pouco...
- Só que Andres se escreve Andrea...
- Ah... entendo.. uma coisa meio Gay-Hermafrodita...
- Aff... tá parecendo pendenga do Léo...
- Verdade...
- Acho que isso já serve pra abertura...
- Concordo...
- Garçom? Mais uma aqui!

O resto da conversa se foi com alguns neurônios brutalmente assassinados por álcool.