— Maldição! – repetia aquele desacreditado ser. O fogo alto de seu fogão Dako quatro bocas parecia não entender que pra um vampiro tão velho quanto ele, não precisava de velocidade no simples cozer de um Nissin Miojo sabor churrasco. Ele tinha toda a eternidade do mundo.
Mas quem parecia não entender, era o pobre Bóris que o mundo havia se modificado. “Evoluído”, até diriam alguns. Que as dificuldades de se acender uma fogueira em meio a um bosque havia sido substituído pelo prazer de colher madeira para o fogão a lenha; que a arte de partir a madeira com o machado – uma ferramenta que sempre o fascinou – transformara-se naquele imãzinho com o telefone do tele-gás na porta da geladeira; e que até isso já era coisa do passado com o microondas. Mas forno a microondas já era demais pra Bóris. Não, há coisas a qual um vampiro jamais se renderá. Bastava-lhe comer sopas instantâneas como complemento alimentar.
O computador e a internet, no entanto, não se incluíam nesta lista. Bóris se entregou aos prazeres de viajar para qualquer lugar do mundo com apenas um clique. E lembre-se que estamos falando de alguém que num piscar de olhos se transforma em um morcego e pode viajar para qualquer lugar!
Carregou para seu porão um notebook – idêntico ao que viu na TV do vizinho, espiando pela janela – roubado de uma de suas vítimas juvenis e desde então não pára de se encantar com aquele pequeno aparelhozinho que faria velhos amigos da idade média clamar pela fogueira.
Com pouco tempo de adaptação – principalmente para suas longas unhas, que gostava de chamar de garras – já navegava por sites de notícias (ainda que títulos como “Mantega: turbulência não abalará economia” o deixava na dúvida se era algo sobre culinária, a crise aérea ou economia mesmo) e mandava e-mails (que inclusive, rendeu uma resposta tão polida quanto irônica do SAC da Nissin dizendo que um sabor de sangue não estava nos planos da empresa) e buscava parentes distantes com a ajuda do Google. Até encontrou um meio-primo esloveno que não só negou a família, como negou a raça. “A morte foi pouco por ter se tornado vegetariano”, publicou mais tarde em seu blog.
Este blog, aliás, que contava suas aventuras noturnas, era sua mais nova tara – além, é claro, de cantores de duplas sertanejas interioranas, com suas calças ultra-apertadas e circulação sangüínea interrompida. Até tentou bate-papos e MSN. Parecia, a princípio, uma ótima maneira de conseguir novas vítimas. Mas reconsiderou quando inadvertidamente pegou um vírus que afirmava, em seu nome, ter-se submetido voluntariamente a práticas sodomitas. Um episódio que nem mesmo o melhor de seus dias de caça havia feito com que aquelas bochechas ficassem tão rosadas. “Os bailes vienenses eram uma loucura, é verdade”. Mas todos foram sempre muito discretos.
Foi então que decidiu dedicar-se apenas ao blog mesmo. Mas até isto já estava lhe trazendo algumas dores de cabeça. Não foram poucas as vezes que pensou em desligar a opção de comentários. Até teria feito, se soubesse como. Tinha gente que tinha verdadeiro prazer em fazer graça de seus posts e sugerir – muitas vezes de maneira nada gentil – que procurasse tratamento médico. “Cuidem de suas vidas! Enquanto eu não os encontrar, malditos!” vocifera sempre ao final de cada post.
Mas Bóris não conseguia entender que esta era a graça da coisa toda. A interação (insultos mútuos), a troca de experiências (confissões desavergonhadas), liberdade de idéias (anonimato garantido) e contato social (mais insultos). Um de seus posts, “Riso e sangue”, que contava o desastroso fim da pobre e jovem loira vendedora de lingerie que riu descontroladamente quando ouviu suas últimas palavras (“Curve-se e ofereça-se voluntariamente a sede de Mortícius”, seu codinome pela noite) foi inclusive ganhador de um prêmio de comédia de uma emissora de TV. Bóris se recusou a comparecer no evento de entrega. Aquilo não era graça, era fato. Se houvesse, aliás, um pouco mais de confiança e verdade na internet, os organizadores do tal evento ficariam aliviados pela ausência do velho mordedor. Ele teria feito um estrago com tantos teens descontrolados, tenros e corados.
Melhor para eles. Para Bóris, o sol já se punha e estava na hora de entrar em ação. Os tempos podiam ser outros, o pouco e ralo sangue puro disponível tipo O positivo (seu preferido) também. Mas há coisas num vampiro que nunca mudam. Ainda bem!
Um comentário:
O penúltimo paragráfo é um clássico! Muito bom!
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